NAVEGADORES

Quem descobriu o quê
 

Em época de comemorações da descoberta do Brasil, os historiadores lançaram para o debate uma série de dúvidas sobre os verdadeiros protagonistas de um dos maiores feitos do Renascimento. Afinal, nem tudo o que aprendemos na escola pode corresponder à verdade...


SE É verdade que a América e o Brasil foram descobertos mais de uma vez e por muito mais gente, não é menos certo que Colombo ficou como o herói do Novo Mundo e que Cabral assumiu a paternidade do «achamento» das terras de Vera Cruz. E que Américo Vespúcio, florentino esperto, que pouco teve com os feitos das navegações, emprestou o seu nome ao continente americano. Aproveitando as efemérides do Descobrimento do Brasil, propomos algumas indagações. Teria sido mesmo Colombo o primeiro a chegar à América? Seria Colombo italiano autêntico e estaria de verdade ao serviço dos reis católicos de Castela? E Pedro Álvares Cabral? Será verdade o que aprendemos na escola? Qual foi a «jogada» de Vespúcio? Quem foi Duarte Pacheco Pereira?

«Oficiosamente», Colombo «teria nascido em Génova». É a versão mais aceite e a mais divulgada nos manuais escolares. Mas quando se passa para o campo da especulação histórica, aí, o navegador é um festival de contradições. Vejamos algumas: Cristóvão Colombo era mestiço, descendente de uma tribo Maia que, na antiguidade, fizera uma viagem à Europa. Cristóvão Colombo era mestiço sim, mas de árabes, negros e judeus, «um homem etnicamente confuso trazendo a confusão étnica a um continente ao qual ele jamais esperava chegar e o qual ele morreu negando existir». Colombo era um maluco obsessivo, dado a «acessos incontroláveis de fúria que o deixavam babando e espumando». Era também um maníaco sexual excepcionalmente bem dotado, sofrendo de priapismo e incontinência urinária. Era tímido, vaidoso, gago e inseguro, capaz de se expressar apenas através de cartas e diários. Mas o maior tormento da sua vida foi a calvície precoce. Cristóvão Colombo era ainda místico e as suas viagens buscavam não novos continentes mas a transcendência espiritual.

Estas visões do descobridor estão em dois livros escritos em 1991 nos Estados Unidos: The Crown of Columbus, de Michael Dorris e Louise Erdrich; e The Heirs of Columbus, de Gerald Vizenor. Já no livro Cristóvão Colombo, Corsário em Portugal, do comandante Fernando Augusto Pedrosa, o autor defende a tese que, embora genovês, Colombo foi um corsário ao serviço do rei português D. João II. Outro livro, este O Português Cristóvão Colombo - Agente Secreto do Rei Português Dom João II, de Augusto Mascarenhas Barreto, é ainda mais radical. Para Barreto, Colombo, na verdade, chamava-se Salvador Fernandez Zarco, natural da vila de Cuba, no Alentejo - português portanto.


A Armada de Álvares Cabral, segundo o célebre «Livro das Armadas da Academia de Ciências de Lisboa»

Fernandez (Colombo) Zarco era neto do Rei D. Duarte, filho do infante D. Fernando, duque de Beja e de Viseu, condestável do reino e mestre da Ordem de Cristo. Era templário desta mesma Ordem e estava sob juramento a serviço do seu cunhado e primo, D. João II de Portugal. A tarefa imposta pelo rei ao seu agente secreto consistia em afastar os espanhóis da rota da Índia, onde estavam as especiarias.

A tese de Mascarenhas Barreto é refutada por Alfredo Pinheiro Marques, no livro As Teorias Fantasiosas do Colombo Português, e por Luís de Albuquerque, em Dúvidas e Certezas na História dos Descobrimentos Portugueses, enquanto o historiador José Hermano Saraiva a minimiza, citando que apesar do livro ter sido escrito na era da informática, «prova como a imaginação resiste aos computadores». Saraiva considera a vida de Colombo «profundamente enigmática», e que «estes enigmas estimulam. Excitam. São uma espécie de desafios permanentes».

Mas seria Colombo português? Pergunta José Hermano Saraiva. «Era genovês, é o que mais se diz. Mas essa verdade está carregada de sombras e contradições. Em jovem participou em dois combates contra navios de Génova. E quanto aos parentes genoveses, nunca apareceram. O filho Fernando, quando já era ilustre, procurou-os em vão. E o mais grave é que não escrevia em genovês. Deixou numerosos autógrafos, mas sempre ou numa algaraviada de um mau castelhano, ou num latim estropiado, a denunciar aprendizagem de autodidacta.»

«Ora - afirma Saraiva -, é difícil aceitar que um genovês não soubesse a língua da terra em que nasceu. E aqui salta a matilha toda: disfarçou-se de genovês, mas, realmente, era catalão. Não, seria galego de Pontevedra. Longe disso: era da Córsega, como Napoleão. Aventureiro grego é o que deve ter sido. Até chegou a pretender-se que fosse suíço. E dinamarquês. E a tese portuguesa tem aí um lugar de particular destaque.»

Seria judeu? - indagam outros, baseando-se em João de Barros, por ter escrito de Colombo: «Todos dizem que era genovês de 'nação'.» Cito novamente Saraiva: «Para indicar um genovês italiano não se usaria a expressão 'de nação', que significaria, sempre, judeu.»

A defender a tese de Colombo ser português contam-se os nomes de vários investigadores, como Patrocínio Ribeiro, Carvalho de Ataíde, Ferreira de Serpa, além do já citado Mascarenhas Barreto. Se há controvérsias sobre o local de nascimento e nacionalidade do navegador, não são menores as dúvidas se teria sido mesmo Colombo o primeiro a chegar ao Novo Continente.

Quem descobriu a América? - Cristóvão Colombo, no dia 12 de Outubro de 1492 - responderia a maioria. Mas há uma minoria que discorda. Há controvérsias e discrepâncias.


Gravura de Pedro Álvares Cabral

Teixeira de Aragão, em Breve Notícia sobre o Descobrimento da América (1892), resume alguns dados conhecidos no século passado referentes à América «antecolombiana» e cita, e transcrevo: «António Ribeiro dos Santos diz que no breve de Gregório IV, dos últimos anos do século IX, dirigido a santo Anscario, arcebispo de Hamburgo, se nomeia a Gronlandon-Groelândia (Terra Verde), e que os antigos escandinavos fizeram em 874 uma expedição à Islândia, e desta ilha facilmente passaram à Groelândia e à América Setentrional, onde estabeleceram colónias na Florida e Canadá.»

O mesmo historiador acrescenta que com este descobrimento devia ter lugar o de alguma das Antilhas, pertencentes ao Novo Continente, e apresenta como documento o mapa ou planisfério de Andre Bianco, datado de 1436, visto por Vililoison, que assim o descreve: «O manuscrito italiano, n.º 76, da Biblioteca de S. Marcos de Veneza, contém uma carta marítima, desenhada com muita exactidão, composta de dez folhas. Nesta carta achava-se uma das Antilhas, demarcada pela mesma mão, e vê-se escrito com o mesmo carácter de letra - Isola Antillia -, o que é tanto mais notável quando vemos que o descobrimento das Antilhas se atribui a Cristóvão Colombo em 1492.»

Alexandre de Humboldt observou uma carta de marear, existente na biblioteca do grão-duque de Weimar, feita em 1424 por Ancontiniano, representando 87 léguas marítimas ao ocidente dos Açores, à parte setentrional da ilha Antília, e para o seu norte mais duas ilhas. Humboldt analisou também na biblioteca de Parma o mapa mundi do genovês Bechario, datado de Julho de 1435, onde estão marcadas ao poente dos Açores as três ilhas indicadas por Ancontiniano, chamando-se à maior e mais meridional Antília, e descreve outras menores, e por baixo tem «Insufle de novo Reperte» - Ilhas ultimamente descobertas.

O cosmógrafo florentino Paolo del Pozzo Toscanelli devia ter conhecido estas cartas, e, talvez, de alguma delas se servisse para as informações que forneceu ao cónego Fernando Martins, em carta de 25 de Junho de 1474, e na outra que «ipsis verbis» dirigiu pouco depois em resposta a Cristóvão Colombo. Aí vem o erro geográfico das costas da Ásia confinarem com as costas ocidentais de África, erro de que o genovês nunca se emancipou.

Escreve Toscanelli: «A melhor via para a Índia dos aromas e das gemas», como para o ouro de Cipango e para as riquezas de Cataio, «não é a que vós seguis, pela Guiné, contornando a África», mas directo, navegando para ocidente. Colombo acreditou, mas o seu projecto foi rejeitado por D. João II, que apostava na circum-navegação do continente africano.


Retrato de Cristóvão Colombo. Nenhum dos supostos quadros do navegador reflecte os seus verdadeiros traços e pouco se sabe sobre as suas origens

«Claro que a América foi descoberta muitas vezes antes, mas sempre se fez silêncio a respeito disso», afirmou Oscar Wilde, que não era historiador mas tinha uma grande sensibilidade e era irlandês, um dos povos que também reclamam a «paternidade do descobrimento», um milénio antes de 1492, reivindicando o feito para um monge irlandês de 70 anos, canonizado como S. Brendan (S. Brandão), que içou velas com outros 17 monges para encontrar «a prometida terra dos santos». Segundo a lenda, os monges desembarcaram numa ilha verdejante onde os pássaros falavam latim. Noutra ocasião, embicaram o seu «currach» (barco celta com revestimento de couro) numa ilhota para acenderem uma fogueira, para a seguir perceberem que a «ilha» - na verdade, uma baleia - submergia. E, no entanto, essa lenda inspirou marinheiros durante um milénio: a «ilha de São Brandão» ainda estava a ser procurada no século XVIII, e alguns escritores argumentaram também que o velho marinheiro foi o primeiro irlandês de Boston.

Vários historiadores enumeram ainda os seguintes «descobridores» da América: por africanos negros em 1500 antes de Cristo; pelos fenícios em 600 a.C; pelos romanos no ano 64 d.C; pelo monge chinês Fah-Sien em 412 d.C; por Hoei-Shin da China em 499; por S. Brandão no século VI; por Bjarni Herjolfsson em 986; por Leif Ericson em 1001; por Nicolo e António Zeno em 1400; por um misterioso judeu polaco (Gaspar da Gama?) em 1476; por pescadores de Bristol nos anos 80 do século XV; ou por portugueses (e por quê não?) também na década de 80 do século XV.

Não teria sido por acaso, ou sem acaso, que o navegador português Afonso Sanches, nascido em Cascais (onde há uma rua com o seu nome), em 1486, atingiu «remotíssima latitude ocidental, onde avistou terra até então desconhecida, que hoje se julga ser a América do Norte»?

Num curioso livro existente na Biblioteca-Museu Conde de Castro Guimarães, edição de 1873, denominado Vida e Concelho de Cascais, escreveu Borges Barruncho, ao tempo presidente da Câmara: «Pertence ao número das maiores antiguidades de Cascais, e por isso tem aqui lugar, a notícia de ter nascido nesta terra o célebre piloto Afonso Sanches, o qual navegando numa caravela foi em 1486 arrojado por um temporal a uma remota longitude ocidental, onde avistou terra até então desconhecida, que hoje se julga ser a América do Norte; e arribando depois à ilha da Madeira com alguns marinheiros, morreram todos em casa de Cristóvão Colombo, que ali se achava casado com a filha do donatário de Porto Santo, Bartholomeu Perestrelo.»


Duarte Pacheco Pereira, navegador português que historiadores de Michigan defendem ter descoberto o Brasil, em 1493

«O diário náutico de Afonso Sanches ficou em poder de Colombo, que dele se aproveitou para descobrir, ou antes «reachar» a América em 1492, seguindo as indicações do navegador português. Tal é a narração que encontramos em vários livros, e que não devíamos esquecer sendo tão honrosa para a pátria de notável piloto».

Também a Geografia, Brasílica ou Relação Geográfica do Brasil, publicado no Rio de Janeiro em 1817, sublinha que «o descobrimento deste hemisfério é atribuído ao piloto genovês Cristóvão Colombo. Diz-se que a sua felicidade principiara com ele se achar na ilha da Madeira, quando pelo ano de 1480 ali aportou o mestre Sanches, com sua caravela destroçada e três marinheiros, mais mortos do que vivos, pelas calamidades que sofreram com um temporal que os levara a remotíssima longitude ocidental, onde avistaram o que provavelmente era alguma das ilhas das Caraíbas.»

De posse dos dados, mapas e outras informações trazidas por Sanches, inesperadamente, Colombo abandona Porto Santo com o seu filho Diego, deixando para trás a mulher, e oferece os seus serviços aos reis católicos de Castela, Isabel e Fernando, que, acreditando nas teses do genovês, resolveram patrocinar o empreendimento, com os resultados conhecidos. Além de Sanches, outros portugueses teriam estado na América antes de Colombo. Entre estes, destaques para Diogo de Teive, que teria descoberto a Terra Nova em 1452; João Corte Real e Álvaro Martins Homem, que teriam arribado à «Terra, dos Bacalhaus, a que depois teriam chamado Terra Nova»; outro Corte Real, Gabriel, teria estado no Canadá em 1472, «a que deu o nome de Terra Verde». Bartolomé de Las Casas cita, em História de Las Indias, um madeirense António Leme que teria chegado às Antilhas. Já o açoriano João Fernandes e Pedro de Barcelos teriam arribado à Gronelândia.

Antes de Cabral, teriam chegado ao Brasil, em Junho de 1499, Alonso de Ojeda, que teria aportado no delta do rio Assu, no Rio Grande do Norte; o andaluz Vicente Yáñez Pinzón (26 de Janeiro de 1500), atingindo o cabo de Santo Agostinho em Pernambuco ou o cabo Mucuripe no Ceará; em Fevereiro do mesmo ano, foi a vez de Diego de Lepe desembarcar no Cabo de Santo Agostinho, para alguns historiadores, ou no cabo de São Roque, Rio Grande do Norte, para outros. Há também quem defenda (Gago Coutinho) a presença de Bartolomeu Dias, num desvio pela volta do mar, ao caminho da Índia, em 1497.

O historiador potiguar Lenine Pinto, no livro Reinvenção do Descobrimento, embora admitindo a primazia do «achamento» a Cabral, transfere o privilégio concedido a Porto Seguro e garante a presença do almirante na praia dos Marcos, no litoral norte-rio-grandense. Existe outra tradição de terem alguns portugueses desembarcado no Brasil antes de Cabral, apresentando-se como prova autêntica o testamento de João Ramalho, escrito nas notas da vila de São Paulo, pelo tabelião Lourenço Vaz em 3 de Maio de 1580, onde o testador por duas vezes repetiu, diante de cinco testemunhas, que tinha alguns noventa anos de assistência (permanência) nesta terra, sem que lhe fosse contestado, e, sendo verdade, havia aportado às Terras de Santa Cruz por 1490 - dois anos antes de Colombo.


Dom João II (no «Livro dos Copos»), ao serviço de quem navegou Duarte Pacheco Pereira

Colombo, com os seus feitos, justa ou injustamente, foi homenageado pelos pósteros. Do seu nome há hoje um país, a Colômbia; o distrito de Columbia - Washington, capital dos Estados Unidos -; Columbos, capital do estado norte-americano de Ohio; Columbia, capital do estado da Carolina; há uma cidade no Paraná chamada Colombo e outra em São Paulo, Colômbia, e até outra, na Ásia, Colombo, capital do Ceilão, actual Sri Lanka, onde Colombo nunca pôs os pés.

O nome América, o continente americano, foi dado em homenagem a um outro grande navegador italiano, Américo Vespúcio. Só que no Novo Continente Vespúcio também nunca pôs os pés. No livro História da Mentira Através do Tempo, de Cristiano Lima e Almeida e Sousa, os autores acusam de ser «Américo Vespúcio, um grande navegador que nunca navegou».

Afirmam os historiadores: «Américo Vespúcio, o célebre florentino de Sevilha, tinha, com firmeza inabalável, ideias assentes sobre a maneira mais prática de legar o seu nome à posteridade. Achava ele, e com alguma razão, pois que, com outros nomes de mais respeitabilidade assim aconteceu, que não seria necessário navegar, para ganhar fama de navegador; que não seria preciso cruzar oceanos e paragens até aí desconhecidos. O que uns conseguiram, estudando, encorajando e financiando expedições e fundando escolas náuticas e científicas, Américo Vespúcio dispôs-se alcançá-lo por meio de trapaças, mentiras e audácias inultrapassáveis. Vespúcio não era marinheiro, nem geógrafo, nem cartógrafo. Mas deu o seu nome a um continente.»

Cristiano Lima e Almeida e Sousa contam como foi a trapaça organizada por Vespúcio: «Juanoto Berardi, natural de Florença, tinha em Sevilha uma casa de comércio. Abastecia navios, mercadejava com mareantes da rota da índia e ia juntando ao canto da arca ferrada cruzados e dobrões. Sevilha era, depois de Lisboa, um dos maiores empórios comerciais da península. Servida pelo movimentado porto de Cádis, dava possibilidades de fortuna a quantos se entregassem ao negócio com homens das naus e caravelas. Vespúcio era escriturário do seu compatriota Berardi, que se dedicava também ao ramo bancário. Foi, pois, sentado na banca dum escritório, que ele se relacionou com os principais navegadores da época, dos muitos que se encontravam ao serviço dos reis de Espanha.

Quando Colombo chegou à Andaluzia, Vespúcio tornou-se seu escrevente e guarda-livros. O facto pô-lo a par dos relatórios arquivados pelo descobridor do Novo Mundo, das suas notas, descrições e diários de viagem. Quando Colombo caiu no desagrado de Fernando e Isabel, Vespúcio apareceu, na corte de Madrid, oferecendo curiosíssimas revelações acerca das índias ocidentais. Conquistou a protecção dos monarcas, que o encarregaram de vir a Portugal colher junto aos marinheiros portugueses novos elementos acerca das navegações. O novo ofício de espião oficial revela a sua verdadeira vocação: recolhe notícias secretas, vareja as naus ancoradas e recém-chegadas, percorre cais e armazéns. Nunca saiu de Lisboa, nunca pôs o pé num navio, sem que este tivesse fundeado e ancorado. Este falso navegador tinha o horror do mar, o medo do perigo inesperado e a fobia da tormenta.


Ao regressar a Espanha, Vespúcio teve arte de convencer os monarcas e o próprio Colombo de que tomara parte em várias expedições. Alonso de Ojeda, o grande navegador espanhol, afirmou mesmo, numa carta para Isabel, que Vespúcio o acompanhara numa viagem à América Central. Que razão ou interesse teve Ojeda em garantir, de maneira peremptória, uma coisa que facilmente se provou, anos depois, ser refinadíssima falsidade, ignora-se. Os reis acreditaram-no. Vespúcio escreve então as suas famosas cartas, enviadas para Itália e Alemanha. Em 1504, elas começam a ser reproduzidas em numerosas edições, compiladas sob o titulo de 'Quattuor Navigationis'. Vespúcio afirmava ter feito duas viagens por conta de Portugal e outras duas com o apoio da Espanha. Não há os mais leves vestígios de tais expedições nos arquivos peninsulares ou nos italianos. Nenhum autor se refere a elas.

Tudo o que constituísse novidade sobre os descobrimentos, tinha público numerosíssimo. Esgotavam-se todas as edições que apareciam acerca do assunto. E assim, as cartas de Vespúcio, não se sabe com que apoio financeiro, ou mesmo político, foram editadas aos milhares e espalhadas por toda a parte.

O nome do trapaceiro ganhou crédito. E tão grande, que um alemão, Waldessemuller, que estava a editar uma 'Cosmografia de Ptolomeu', lhe pediu elementos para um planisfério. Vespúcio, é claro, enviou-os. Waldessemuller aceitou-os, como se fossem originais. A confiança do autor germânico foi tão grande que, num preâmbulo inserto na edição da 'Cosmografia', propôs, como prémio ao mérito de Vespúcio, que as novas terras se chamassem Américas.

A edição e a sugestão correram mundo. O nome soava bem. Na Itália, adoptaram-no. Na Inglaterra, França e Alemanha também. Quando Waldessemuller descobriu o logro em que caíra e quis desfazer o engano, já era tarde. A 'América' estava ali, espalhada, por quantas obras iam surgindo. Apenas na Espanha, a terra que Colombo descobrira continuava com o primitivo nome: Ilhas Ocidentais. Só no século XVIII, perante uma esmagadora maioria, indiferente às razões ponderosas da coroa e do orgulho espanhóis, os mapas de origem castelhana se curvaram ante a denominação falsa que um falso navegador forjara.»

Dizia Teixeira de Aragão: «Tem-se lamentado a desconsideração feita a Colombo, por se não haver dado o seu nome ao continente que descobriu, preferindo o de América, em honra de outro navegador Américo Vespúcio. O facto parece representar certa ingratidão, e só se poderá explicar pela importância que se deram, no começo do século XVI, às notícias e cartas publicadas pelo dito Vespúcio, e onde declara 'Ter sido o primeiro descobridor da terra firme, enquanto Colombo só fora das ilhas'. Tanto as cartas como as relações das viagens foram traduzidas por toda a Europa em várias edições.»

E pergunta: «Seria a propaganda da imprensa, exaltando o mérito e serviços náuticos do florentino, que deu causa a chamar-se América aquela parte do mundo?»

O mesmo historiador esclarece que «alguns escritores têm dado diversas etimologias ao nome de América sendo das mais engenhosas a de Júlio Marcon, que diz ser termo propriamente americano, significando terras altas ou cadeia de montanhas. Entre Juigalpa e Libertad, província de Chontales, existem umas cordilheiras auríferas, que se prolongam de um lado até o país dos índios Carcas e do outro ao dos índios Ramas da América Central, onde habita uma tribo de índios vermelhos chamados Américos. Assevera o escritor que essa mesma denominação se dá em geral às cordilheiras e aos rochedos, e que Amerique ou Americ é nome indígena, cuja terminação em ique ou ic é comum nos nomes de lugares na língua índio-leuca ou Chantales, não só da América Central como sem alteração nessa parte do continente, devido ao completo isolamento em que vivem aqueles índios.»


As cartas de Vespúcio, não se sabe com que apoio financeiro ou político, foram editadas aos milhares e espalhadas por toda a parte. O nome do trapaceiro ganhou crédito

«Cristóvão Colombo - continuo com Breve Notícia - visitou a tribo dos americos em 1502, mas na carta que escreveu aos reis católicos não designou esta localidade nem outras em que abundavam as minas de ouro, provando que ele não disse tudo o que sabia, e nessa ocasião ao narrar os acontecimentos da sua quarta viagem achava-se enfermo do corpo e bastante torturado do espírito. É provável que na volta à Europa ele e seus companheiros falassem dessas montanhas de ouro, sonho querido dos que foram e dos que ficaram, citando-se então o nome de Amerique ou Americ, e se vulgarizasse como Eldorado de modo a ficar assim conhecido o Novo Mundo.»

O escritor fez notar que o verdadeiro nome de Vespúcio, que esteve ao serviço de Portugal era Amerrigo, e que o nome de Americus e Amerrigo figurou nos múltiplos calendários de santos, concluindo que o nome América foi tirado mesmo do Novo Continente.

Colombo, descobrindo ou não a América, sendo italiano ou não, ganhou a recompensa de ser nome de um país. Américo Vespúcio, falso navegador ou não, ganhou mais: um imenso continente.

A escola de samba Académicos do Salgueiro desfilou no Carnaval carioca de 95 com um enredo instigante. «O Acaso do por acaso», sobre o descobrimento do Brasil em 1493 pelo navegador Duarte Pacheco Pereira. Esta tese, defendida por historiadores da universidade norte-americana de Michigan, não encontra respaldo nos estudiosos portugueses. Sabe-se que Pacheco Pereira «teria estado» no Brasil em 1498, segundo faz constar no seu livro Esmeraldo de situ orbis. Sabe-se também que Pacheco Pereira participou, como testemunha, da assinatura do Tratado de Tordesilhas e que fez parte da frota de Cabral, da qual resultou a descoberta do Brasil. Daí seguiu para a índia na mesma frota cabralina. Em 1503, o navegador percorreu a mesma rota, desta feita na esquadra capitaneada por Afonso de Albuquerque, como comandante da nau «Espírito Santo».

No oriente, Duarte Pacheco Pereira operou bastas façanhas em Calicute e Cochim. Regressou a Portugal em 1505. O próprio rei foi buscá-lo a bordo e levou-o em solene procissão à Sé e desta igreja para a de São Domingos, conservando-o sempre a seu lado.

Sabe-se ainda que Duarte Pacheco, cognominado por Camões como o «Aquiles Lusitano», nasceu em Santarém (data incerta), sendo filho de João Pacheco e de D. Isabel Pereira. Era homem de grande erudição, insigne cosmógrafo e roteirista. Deixou manuscrita a seguinte obra, com o quilométrico título: Princípio do Esmeraldo 'de situ orbis', feito e composto por Duarte Pacheco cavaleiro da casa del-rei D. João II, de Portugal, que Deus tem, dirigido ao muito alto e poderoso príncipe, e sereníssimo senhor, o senhor rei D. Manuel Nosso Senhor, e primeiro deste nome, que reinou em Portugal, constando de quatro livros, acompanhados de 16 mapas e algumas estampas pequenas.

Texto de DUDA GUENNES