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| Fialho de Almeida | |||
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| Grande escritor e médico que viveu em Cuba | |||
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José Valentim Fialho de Almeida (1857-1911), filho de um mestre-escola, nasceu em Vila de Frades, Alentejo, a 7 de Maio de 1857 e morreu na vila de Cuba (Baixo Alentejo), a 4 de Março de 1911. Filho de Valentim Pereira de Almeida (natural da Vila de Oleiros - Beira), e de Maria da Conceição Fialho (natural de Vila de Frades). Seu pai, mestre de escola ensinou-lhe as primeiras letras, isto é, até à 4ª classe. Foi um tempo difícil porque filho de professor tinha obrigação de ser superior aos outros, não podia ser criança como as outras. Em 1866, com 9 anos, foi para Lisboa, para o Colégio Europeu fazer os estudos elementares, que seguiu regularmente até 1872. Deste período escreve: "Fui bom estudante sempre, e uma criaturinha triste e sossegada - duas razões que, acumuladas com a de meu pai nunca vir da província, visitar-me, e de por sua pobreza não poder mandar presentes bons ao director, me valeram cinco anos de privações e de maus tratos, e uma resistência aparentemente submissa e tímida de orgulho, que pela vida fora tem sido a minha bela independência e a minha força" (in À Esquina). Devido a dificuldades econômicas da família, empregou-se em 1872 como ajudante de farmácia, tornando-se estudante trabalhador mas com menos facilidades do que hoje. Frequenta a Escola Politécnica e, depois, matricula-se na Escola Médico-Cirúrgica, onde, em 1885, acaba o curso de medicina. Praticamente não exerceu como médico. Fez um curso medíocre por que outros valores mais altos se levantavam - tendo-se entregue à vida boêmia e literária. Lança-se literariamente com seus contos e crónicas, primeiro nos jornais provincianos, depois nos de Lisboa. Funda em 1880 a revista A Crónica, publicando vários artigos com o pseudônimo de Valentim Demônio. Colabora em vários jornais e revistas, destacando-se o jornal Novidades, O Repórter, Pontos nos II, Correio da Manhã, etc. Publica o primeiro conto em 1881, dedicando-o a Camilo castelo Branco. As suas obras podem ser divididas em duas partes: Polêmicas e de Ficção. Deixou-nos uma obra formidável, mas tocada pelo excesso, pela ira, pela tensão, pelo colérico. Utilizou a língua para chacota, para se rir de tudo. Um dos motivos pode ser determinado pelos recalcamentos educacionais, mas outro, não menos importante, foi o meio em que viveu: "a Babilónia perversa que é Lisboa onde os cães fazem a vida negra aos gatos" Em 1893, casa-se com uma abastada proprietária de Cuba, ainda sua parente, mas enviuvou onze meses depois, vivendo os últimos anos da sua vida com o desafogo material que sempre lhe faltara. As suas principais obras, como crítico de arte e de costumes, são "Os Gatos" e como exímio contista, "Os Contos", "A cidade do Vício", "O País das Uvas". Escreveu também uma grande série de crónicas e impressões e comentários diversos, que se distribuem por vários volumes: "Jornal de um vagabundo" - "Pas quina das", 1890; "Vida irónica", 1892; "À esquina", 1903; "Barbear, pentear", 1910. Após a sua morte, ocorrida em 1911, foram editados os títulos: "Saibam quantos..." - Cartas e artigos políticos -, 1912; "Estâncias de arte e de saudade", 1921; "Figuras de destaque", 1924; "Actores e autores" - impressões de teatro -, 1925. Os seus contos procuram apreender o lado mais impressionante da miséria ou do sofrimento, e o assunto, muitas vezes, são casos mórbidos. As inúmeras crónicas que escreveu são muitíssimo irregulares quanto ao mérito. Não podem, de forma alguma, ser comparadas com "As farpas", de Ramalho Ortigão. Embora a sua escrita se paute pelo mordaz, ele era muito sensível à ternura: deixava-se embalar por sentimentos que se reflectem na sua obra, que é de uma beleza extraordinária. Tinha um conhecimento profundo da nossa língua; por isso, a enriqueceu grandemente, introduzindo-lhe novos e arrojados meios de construção, neologismos e nacionalização de termos expressivos. A memória de Fialho de Almeida perdura na vila de Cuba |
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Escultura contemporânea homenagem a Fialho de Almeida, escultor Fernando da Silva -1993
Encontra-se no Centro Cultural de Cuba. (exterior)
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Painel mural em azulejo átrio da Escola Secundária Diogo de Gouveia - Beja cartão do Mestre Dordio Gomes pintado por Eduardo Leite fábrica Viúva Lamego |
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Bibliografia:
In Memoriam de Fialho de Almeida, Porto, 1917. Vila-Moura, Fialho de Almeida, Porto, 1917. Raul Brandão, Memórias, vol. I, 2ª ed., Porto, 1919. Jacinto Prado Coelho, introdução à antologia Fialho de Almeida, Lisboa, 1944. Clementina Ferreira de Sousa, Fialho de Almeida e as artes plásticas, Lisboa, 1954. Mendes dos remédios Castelo Branco, «A expressão do cómico em Fialho de Almeida», em Ocidente, vol. LX, 1961. Clara Rocha, As Máscaras de Narciso, p. 131. |
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Títulos das Obras |
Ceifeiros - Fialho de Almeida Capa do Almanaque |
Painel em Azulejos - exterior Escola C+S Fialho de Almeida - Cuba cartão e pintura executada por alunos, orientados por Manuel Fragoso |
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| Polémicas | |||
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| Ficção | |||
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| Póstumas | |||
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O túmulo de Fialho de Almeida, encontra-se no cemitério local, peça escultórica bastante sóbria, tem no cimo da cúpula uma escultura de rara beleza .
Os Gatos - escultura de ..................
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Na tarde anterior dirigia-me ao momento, caía a noite. Uma contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as árvores, o céu côncavo tinha laivos rosa, como sorrisos de bocas que exalam o último adeus. Por entre os caules seculares dos azinhais e carvalheiras, uns acharoados de incêndio ardiam em apoteoses fúlgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em negro formas de estranhos esqueletos. Caíam a prumo, duma banda e outra, formas de granitos áridos, mostrando nos recôncavos e na profundeza lôbrega dos barrancos os primeiros fantasmas da noite, com os seus capuzes de sombra de derrubados na fronte, e um escorregamento de passadas misteriosas, como de ronda sinistra, que desemboca na quietidão de uma viela, no silêncio da noite velha. Ao centro do abismo a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta entre aglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, donde os matagais irrompiam como hirsutos cabelos de uma cabeça decepada. Sobre a vegetação agressiva dos espinheiros e zambujais uma linha de água corria, fazendo mergulhos tímidos de segredos trazidos de fraga em fraga – e essa queixa contínua e chorosa das gotas caindo manso acrescentava uma nota saliente à sinfonia em surdina dos vegetais adormecidos e dos ninhos em rumor. O montado começava dali a subir pelo irregular das colinas. Não podia enganar-me na marcha. Tinham-me dito – vais pela vereda, chegas ao cotovelo da rocha, à esquerda, sobes a encosta. – É a última azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem fazer ruído, ouve – sem fazer ruído! dás com o ninho logo. Quando a noite se fecha, a águia chega, asas abertas, voo circular e gritinhos alegres de boa ménagère que volta com o dia ganho e um réptil no bico curvo, para os pequeninos esfomeados. Decorar todo este itinerário, prometendo não esquecer a melhor cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéu, descalço mesmo, olhando para cima e em direitura à azinheira de tronco vermelho e nu de cortiça. Tinha então doze anos, era rubro e selvagem, de grenha fulva, dentes pequeninos e brancos, que eriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz – de korrigan vingativo. Achavam-no o orgulho de u rei e a pouca educação de um herdeiro presuntivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias colossais que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa de caixa de ar; todos os meus músculos amplos e duros na contracção, contornados nas linhas altivas de um atleta imberbe, amavam luta e se tonificavam na carreira. Passaram até ali numa herdade, entre boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a forca, a rabeira dos arados, plena liberdade montesa, onde o homem regula as pancadas do seu coração pelo ritmo tranquilo da grande natureza que desabrocha em evoés e hilariantes. Manhã nada, já eu estava a pé, sentado a banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda patriarcal que o alho impregna de odores vermífugos. Vestia como eles a camisola de lã, o largo chapéu de borla e os grossos sapatos cardados, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa, de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia sempre – quero, porque quero! Quando eu dormia, minha mãe ia beijar-me, e de uma vez, acordando sob um desses beijos, que são como ninfas albas caídas no mármore de epidermes frias, voltei-me e disse enraivecido: – Os homens não se beijam, apre! Duma vez bateram-me. Enquanto eu berrava, o galo, cantando, fazia-se apoteose da postura recente de uma galinha amarela, que desposara. Fui-me a ele e torci-lhe o pescoço. – Para não mangares comigo. Toma! A eira, diante do monte da herdade, era um plano inclinado, dura e polida, sem ervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca conseguiam trazer-me limpo – que tinha um ódio insofrido pelos fatos novos e pelos peitos engomados, considerando a gravata um traste inútil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas. Só anos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o outro, fazia dessa tira de seda uma fronteira perigosa – por muito infestada pelo contrabando. Nessa dia, mal deram cinco horas e me apanhei fora da escola, deitei caminho ao montado. Tinha à cintura uma corda de linho com aselha, para subir à arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéu. Meti a navalha no peito e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente, dirigi-me à azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construído sobre três pernadas robustas – Como sobre os três dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a falar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada à primeira bifurcação do tronco, icei-me. Depois, escarranchado na pernada mais sólida, joguei o laço às ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão entrava a dificultar-se; folhas em tufos compactos prendiam-me os cabelos, os ramos oscilavam sob o peso do meu corpo, e de quando em quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho de águia; Primeiro um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados; depois um leito de folhas secas e pequenas hastes; sobre o leito folhas macias de trevos, de tamujes e fenos – e, forrando delicadamente o estojo, uma colcha de penugens brancas que a águia arrancava do peito, nos seus transportes de mãe. Com insano trabalho cheguei-lhe ao pé. Pulava-me o coração no peito, e qual não foi a minha alegria ao ver aconchegadas no ninho, uma de encontro à outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiazinhas implumes, disformes ainda, mas de vigorosas proporções! Cerrara-se de todo a noite. Um claro luar com reflexos metálicos atravessava as vaporizações do arvoredo, penetrando-as de uma poeira de átomos cintilantes. Nas faias da ribeira, os rouxinóis faziam jogos florais arremessando-se os sonetos mais rítmicos; o veio cristalino dos regatos ia contando às folhagens húmidas dos balseiros e canaviais uma lenda antiga de fadas azuis e tesouros mouriscos, narrativa muito em segredo, ente murmúrios de beijos que ao longe mansamente se perdiam. Dava trindades o sino da aldeia – e as aspirações pairavam naquele calado ar em que borboletas negras saltitavam, traçando sinais de mulheres predestinadas. A lua, na tela do céu esmaiado, lembrava, com as suas ranhuras, a mascara da comédia de uma ópera cómica, que a luz da ribalta ilumina. Ergui os olhos – acabava de ouvir um grito. Vi a águia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de asas abertas, cujas rémiges em cutelo siflavam como velas de um moinho em actividade. Depois aquele vulto negro desceu perpendicularmente, raivoso da minha audácia e estendendo o bico de gumes curvos, para me ferir. Agarrado à corda dei um salto, abandonando o ninho, e fiquei suspenso na árvore um instante, a dez metros do chão pedregoso, batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta não chegava ao chão. Deixar-me cair era morrer. De repente, porém a enorme pernada dá um estalido seco, houve um atrito de folhas e lentamente vim baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da águia no peito da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha destruído um felicidade e praticado a façanha de subir à azinheira, sem outro auxílio mais do que uma pequena corda nodosa e fina. Levaria os implumes para a herdade e criá-los-ía com carne e sangue fresco de cordeiro. E eles cresceriam, alcançando as poderosas formas dos pais – bico adunco e córneo, a terrível garra contráctil, simetria elegante nas asas, que um jogo muscular movimenta com inexplicável destreza. E pertencer-me-íam, estariam na gaiola por minha vontade, comeriam se eu quisesse. esta ideia de ter alguém sob a minha obediência encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que arrancasse. E vinham-me tendências para oprimir, para espicaçar, para expor à tortura. Também meu pai me batia! que sofressem! Na azinheira a águia ia de ramo em ramo, soltando, a cada investigação inútil, o seu grito melancólico. Corria as arvores próximas, voejava quase á flor do terreno, batendo com as asas dos tojais da selva, e indo em todos os sentidos como alucinada. Depois abriu as asas horizontalmente com um pulo, susteve-se nas penas como um pára-quedas, e com firmeza cortou o ar obliquamente subindo à região das nuvens. De quando em quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãe roubada ouvia-se na escuridade, como o silvo de um barco em perigo que pede socorro. A minha paixão daquela noite foram os filhos da águia. Persistia na ideia de criá-los – de os fazer gente, dizia eu. Tinha os olhos quase fechados com uma orla amarela e a nictitante espessa, meio descida, o pescoço nu oferecia um desenho esguio, andavam de rojo, dando pequeninos gritos em busca da penugem quente da mãe. Meti-lhes à força miolos de pão pelo bico, que eles bolsaram escancarando a goela em carantonhas de graça infinita. Em seguida, servi-lhes água, mas recusavam tudo, os biltres e se os deixava um momento, punham-se a girar de cabeça alta, à procura do aconchego que não sentiam. Minha irmã, que, apesar do mistério em que eu envolvia as minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então a ideia de meter as aguiazinhas debaixo da galinha que na capoeira chocava os ovos que fora pondo. Ela pensa que são já pintainhos, e as águias vão crescendo, crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim? – Dá!... uma figa. Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito – A galinha consentira em adoptar os dois órfãos e a coisa ia bem! Não pude dormir em toda a noite com a ideia nos pequenos. Se a galinha os picasse, e se os deixasse cair no cesto!... os gatos lançar-se-iam furiosos contra esses dois desamparados e devorá-los-iam, rosnando. – Aplicava o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam a crescer? Um mês ou dois – estávamos a catorze. E contava pelos dedos – era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos da águia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escola, vendo-me arrebatado pelos voláteis, como esses deuses que representava Manual Enciclopédico! No dia seguinte, ergui-me cedíssimo, havia estrelas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para investigar do que havia. Os moços, na eira faziam já girar os bois na retracagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o angelus vibrado pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto estendendo as duas mãos ao longo da palha. A galinha dera sinal e, cheia de cólera, as penas alvoroçadas precipitou-se contra mim a bicada, implacavelmente, até me fazer sangue. Às apalpadelas percorria a cama de palha em que os ovos se aninhavam; achara apenas uma das aguiazinhas. Diabo!... Então, sem medo já que dessem por mim corri a abrir a lucarna, e o dia entrou humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma águia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente, que ressoou por toda a casa. Queria outra águia por força, por força, por força! Queria a, ao pontapé a tudo, ébrio de uma raiva sanguínea. E num formidável choro rolava-me pelo ladrilho todo nu. Todo o meu grande desejo era que me atendessem e viessem todos, surpreendidos, saber o que havia. A voz de minha mãe chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruídos bruscos que se arrastavam e saias que se enfiavam à pressa. Já gritava menos, conseguira o meu fim, tinha incomodado e metido susto a todos de casa. metido susto a todos de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha águia, haviam de ma encontrar por força, ou arranjar-me outra novazinha em folha, como aquela. Apre! Quando de repente me chegou o grito da mãe roubada, grito brusco e quase surdo, como se o coasse uma laringe extinta. Toda a noite o ouviria, ora perto ou distante, sempre com uma nota de ira impotente e suplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal. Fui para a lucarna, instintivamente atraído, à escuta. Era um grito intermitente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguém a gemer – gri! gri! gri! – após, subitamente, essa voz dilatava-se, enrouquecida, fazendo quase um bramido. Uma mulher não expressaria melhor a angústia, o desespero e a morte. Corava o oriente como uma epiderme sadia traduzindo a comoção dum beijo; nas moradas dos ninhos, entre decorações de folhagem e carícias de poética doçura, as famílias de pássaros de melros, de pintassilgos, rolas, rolas e poupas, chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céu. Só ela, a águia, ia chamando embalde pelos seus, através da vastidão do éter, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada no seu único amor como essas cruéis imperatrizes que Deus castiga no único ponto vulnerável da sua alma. Com os olhos alongados, via-se rastejar à flor do solo, pelas chapadas e penhascos, extenuada e rouca, despregando as asas oblíquas, de enormes rémiges em cutelo, como tectos de lares despovoados pela assolação da morte. – Coitadinha! – dizia eu comovido. – Coitadinha!... Então fiquei entorpecido num constrangimento profundo e singular, que nunca tinha experimentado. Sentia na goela o embaraço inexprimível que é nas crianças o prólogo do choro soluçante e inconsolável, sob que a alma germina em bons impulsos e leais dedicações, como na terra se abrem as flores primaveris, sob o influxo das primeiras chuvas. Antes que viessem surpreender-me corri a vestir-me, e resoluto, os olhos cheios de lágrimas e a corda à cintura, voltei a buscar depois a aguiazinha. Minha irmã chamou-me, soluçava. – Olha, morreu!... – disse-me toda aflita, mostrando-me o cadáver da outra águia, que, durante a noite, com mil precauções, tinha ido roubar ao cesto. Por isso achei falta – gritei colérico, batendo o pé. E aos urros, crescendo contra ela de punhos cerrados, dizia-lhe golfando impropérios: – Maldita! Má! Peste! Nosso Senhor há-de castigar-te, deixa estar. Ai de mim! Na capoeira, a galinha raivosa, reconhecendo o outro enjeitado à luz da manhã, acabava de o matar à bicada, lançando-o fora do cesto. Então desatei a chorar. Nunca fora tão desgraçado, nunca!...Nem quando me davam açoites com o chinelo, o que estava debaixo da cama de meu pai, a rir-se de mim pelo buraco ignóbil da tomba. E agora, que fazer? Meti no seio da camisola os dois enjeitadinhos mortos, e a correr atravessei a eira, sem dar bons-dias a ninguém. O dia começava. Rasgando as escuridões em que se envolveria, o panorama saía das nebrinas dissipadas a golpes de sol aqui e além, nas cristas dos outeiros. Desci a correr a ladeira do monte, pendores suaves donde o olhar abrangia, para todos os dados, perspectiva do mais belo matriz, montados, restolhos de searas, regatos orlados de choupos e faias, mais para além, hortejos alegres onde chiavam noras e se espiralava o fumo dos casais, vinhedos sem fim bordando sinuosidades bucólicas, brancas ermidas pousadas nas montanhas, e perdendo-se na serenidade esfumosa do horizonte, povoações que na luz iam fazendo mais e mais nítidos os seus delineamentos. A paisagem tinha agora uma nitidez de gravura. As aldeias sorriam para o noivado da natureza em festa, enquanto, duma banda e outra, grandes massas de arvoredo abriam destaques surpreendentes. Iam tranquilamente pelos terrenos ceifados os carneiros dos rebanhos, alongando o pescoço, a fofa corpulência tufada da lã patente em camas de espiraizinhas miúdas. Alguns velhos guias experientes e graves, focinho erguido, a grossa cornadura em anéis de diâmetros crescentes, enrolada como o arrepio da cabeleira de um dandy, chocalho pendente por correias de couro cru, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo os sons e procurando-lhes a origem solícitos, como quem tem sobre si a responsabilidade da tribo e o futuro dos pequeninos. Acima da redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas horizontais, uma meiguice cândida na vista, erguiam-se a prumo furando caminho, as maxilas entreabertas, por onde se escapa um queixume tenuíssimo – me! me! – alguma coisa como os rudimentos da cartilha do rebanho. Vários preguiçosos, estacados a meio da corrente, mergulhavam o focinho na água, bebendo. Poucos tinham já passado e cortavam a dente as gramíneas alastradas nas barranceiras. O velho cão descansa, numa postura séria de patriarca, enquanto nas meias-tintas dos planos secundários, o pastor, de manta ao ombro e polainas encarquilhando na tomba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de montanhês, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do nascente, numa apoteose de cáusticas vivas – olhar em que se estagnava a silenciosa doçura dos olivais cinzentos e se reflectia a concepção panteísta de um Deus amantíssimo, que fecunda os trigos das searas, preside às crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz de estrelas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme, inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira, vermelha como as cerejas húmidas de Junho. Correndo através do montado, cheguei à ribeira, que pude saltar num pulo de lobo, e, sem me deter, entrei a trepar a pedregosa encosta, na direitura do ninho. Faziam-se ali acumulações selváticas de tojeiros e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhais de luxuriante amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquele recanto, plutónico e brusco, desenhava-se numa como penumbra de floresta, que de cima caía filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixara de ouvir a águia, e era pungente o sossego daquela região, equiparado ao orfeão gigantesco de voláteis, que na planície entoava o poema sinfónico da manhã. Por duas ou três vezes ergui a voz para insuflar a vida nos ecos do desfiladeiro. De rocha em rocha, quando muito, o eco repetia a última sílaba, num murmúrio tímido, como rezado à roda de um féretro, e morria. Pela montanha, troncos penitentes e negros orando de braços abertos. Nos pegos da ribeira, as reticulações verde negras dos limos deixando evolar a putrilagem das febres más. Silêncio abrasado, pesando. Quando cheguei ao ninho, arquejava. E, antes de erguer a vista sobre ele, detive-me um instante, olhando à roda com um terror sombrio, que o remorso envenenava. Se a águia desse comigo podia matar-me à bicada. E teria razão – ai de mim! Estava sozinho. Não se via dali o monte já. De repente, casualmente, sem mesmo querer, dei como a águia, que, de cima do ninho, abria as asas e sobre mim estendia o seu pescoço ávido. Fiquei tremendo ante a raiva silenciosa que paralisava a terrível rainha. Ela ia decerto formar voo e cair sobre mim, para delacerar-me com as suas garras de três gumes implacáveis de uma vingança cruel. Olhámo-nos por tempo. As asas da águia abriram os seus leques enormes de varetas curvas. A imobilização porém continuava e o pescoço permanecia caído à borda do ninho. Veio-me a ideia de que podia estar morta. Atirei-lhe com uma pedra – a mesma indiferença. Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a à primeira pernada da árvore. Quando atingi a altura do ninho, pude olhar bem de perto a águia agonizante, que um frémito vago percorria. Era poderosa e magnífica, de enormes asas pardacentas, cujas fortes rémiges se aguçavam como punhais, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como se quisera aquecer o peito de encontro aos frouxéis alvinitentes em que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata descaía adiante num bico de bordos dentados, e sobre a íris de oiro a nictitante ia descaindo na sombra da agonia, como um apagador sobre a luz do círio pascal. A águia morreu nesse dia, à mesma hora em que as outras aves voltavam cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando o montado atrás dos rebanhos de meu pai, pude ver nos cimos da azinheira gigante, suspenso, o berço-túmulo, a que o esqueleto da águia fazia guarda, dia e noite, de asas estendidas, branquejando na sombria folhagem da árvore. E vinham-me então remorsos, que fora eu o assassino daquela dinastia real! Vai completar-se um ano que a tua filha desceu à cova, ó minha mãe! E, vendo-te curvada no teu luto, pobre mulher envelhecida de lágrimas, sublime por toda uma vida de abnegação sem exemplo, para mim fico pensado que deve ser cruel o Deus que tu adoras, se nunca teve remorsos de haver roubado também. – o Ninho de Águia. 1881 – Vila de Frades |
GRUPO DO LEÃO
Columbano Bordalo Pinheiro 1885
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